A experiência de uma professora universitária portuguesa na Roménia

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Fotografia: © Susana Miranda

A Sónia Dias Mendes é uma excelente professora de português de Portugal, mas desde 2017 vive na Roménia.

Vi a Sónia pela primeira vez há 2 anos. Foi minha professora na Universidade de Bucareste. Como professora, ao princípio inspirou-me medo, mas depois de interagir com ela, a minha opinião mudou completamente. Depois de um tempo, comecei a sentir um grande afeto por ela. Por isso, atrevo-me a fazer-lhe esta entrevista, porque quero que toda a gente a conheça melhor também.

Como professora, a Sónia Dias Mendes é muito exigente, porque deseja que os seus estudantes sejam os melhores. Por esta razão, prepara com muito cuidado toda a matéria e os exercícios que os estudantes têm que fazer nas aulas.

Contudo, todas as aulas dela foram bastante divertidas e também foi bastante fácil aprender a matéria. A Sónia conhece muito bem as estratégias para chamar a atenção dos estudantes. É evidente que tem muitas qualidades didáticas. 

Olá Sónia, podes contar-nos algo sobre ti?

Sónia Dias Mendes: Sou portuguesa e vivo desde 2017 em Bucareste, na Roménia. Sou Leitora do Camões, Instituto da Cooperação e da Língua, I.P. na Universidade de Bucareste, tendo como principal função neste país o ensino e divulgação da língua e cultura portuguesas. Sou uma pessoa bastante ativa e comunicativa, que gosta de descobrir e interagir com outras culturas. 

Conhecemo-nos na Roménia. Foi a primeira vez que deixaste o teu país? E por que razão tomaste esta decisão?

S.D.M: Não, já tinha vivido duas vezes na Alemanha, num total de ano e meio, e seis anos na Argentina. A decisão de viver fora está precisamente relacionada com a minha primeira estadia na Alemanha – gostei muito da experiência e, nesse momento, percebi que poderia trabalhar noutros países, ensinando a minha língua e divulgando a cultura portuguesa. Poderia, assim, juntar o útil ao agradável: ensinar, que é a minha paixão, e viajar, contactar e interagir com culturas diferentes da minha. Depois de terminar a minha Licenciatura em Estudos Ingleses e Alemães, direcionei os meus estudos académicos pós-graduados para o Português Língua Estrangeira, habilitação que me permitiu voltar novamente à Alemanha e mudar-me, posteriormente, para a Argentina e, há três anos, para a Roménia.

Sei que prolongaste a tua estadia na Roménia. Porquê? De que gostas mais na Roménia?

S.D.M: A decisão de prolongar a estadia num país está sempre relacionada com diversos fatores, como: experiência laboral positiva e gratificante, amigos, ambiente cultural e social, integração na cultura de destino, qualidade de vida, entre outros. No meu caso, a junção de vários elementos determinou, sem dúvida, a intenção de prolongar a estadia. Há muitas coisas de que gosto na Roménia e que fazem da minha estadia uma experiência bastante positiva; deixo algumas: o carisma de Bucareste – não é uma cidade pela qual nos apaixonemos imediatamente, é uma cidade que é preciso descobrir, é uma capital com beleza escondida e com um charme impressionante, mas há que dar-lhe tempo para que se mostre; a cena cultural altamente diversificada e acessível ao público; as pessoas, que, para mim, são as que mais se aproximam das portuguesas em termos de simpatia e hospitalidade; os parques e esplanadas em Bucareste, sobretudo na primavera e no verão; a temperatura da água do mar; e a mistura de culturas e estilos arquitetónicos, decorrentes da História do país.

Na tua carreira, qual foi o sucesso que te trouxe mais satisfação? Gostas de trabalhar com os estudantes?

S.D.M: Pode parecer um lugar-comum, mas ver a aprendizagem dos meus alunos é algo que me traz continuamente uma enorme satisfação. Nas nossas carreiras, podemos e temos, sem dúvida, momentos de maior sucesso, muitas vezes, pontuais, que nos proporcionam uma alegria imensa, contudo o trabalho contínuo com os alunos e a perceção de que se faz a diferença na vida destes, não só em termos académicos como também pessoais, é uma experiência que dificilmente pode ser ultrapassada. Saber que não somos esquecidos, pelo contrário, lembrados, por ex-estudantes é algo lindíssimo. E saber que algo de nós ficou neles, mais bonito ainda é.

Sei que gostas de dançar. Quanto tempo dedicas à prática de dança?

S.D.M: Adoro dançar e a Roménia, nomeadamente Bucareste, permitiu-me explorar esse lado. Danço Lindy Hop desde outubro de 2018 – sim, comecei em Bucareste! – e, numa fase normal, sem COVID-19, quarentena e afins, dedico quatro dias por semana, num total de 9 horas, entre aulas, treino e dança social. Neste momento, por não ser ainda possível dançar em pares e, por isso, estarmos numa fase de dança solo, treino sensivelmente 4 horas semanais. Mas mesmo durante a quarentena, não parei – fazíamos as aulas por Zoom! Através do Lindy Hop, fiz também bons amigos, o que torna a experiência mais gratificante ainda.

Onde gostas de passar férias?

S.D.M: Adoro o verão, adoro sol e adoro praia, por isso, qualquer lugar que reúna estas condições. Em termos de praia, gosto muito da região do Algarve, no sul de Portugal – é de uma beleza indiscritível e, sem dúvida, o meu lugar de eleição.

Que planos tens para o futuro?

S.D.M: Por agora, o meu plano é continuar em Bucareste. Naturalmente, a vida pode levar-nos a mudar de planos a curto- ou longo-prazo, mas, por agora, não vislumbro grandes mudanças na minha vida futura.

Que mensagem tens para os teus estudantes?

S.D.M: Que gosto muito, muito deles e que o ensino para mim é uma paixão – sem eles, a minha profissão não faria sentido e o meu nível de felicidade seria muito inferior. Trabalho diariamente para melhorar o meu desempenho e a qualidade do meu ensino e pretendo que os alunos, como bem disseste no texto introdutório, sejam os melhores. Mas, para isso, tem de haver rigor e exigência por parte do professor e trabalho contínuo e responsabilidade por parte do aluno. E fico muito triste quando vejo alunos a não aproveitarem as ferramentas que lhes são facultadas… Quando aproveitam, sinto-me, naturalmente, muito feliz e há muitas palmas, como bem sabes!

O que achas sobre a educação na Roménia? Que mudanças achas necessárias?

S.D.M: Do que me foi possível percecionar com os meus alunos (não posso falar em termos globais do sistema educativo romeno), creio que seria importante fomentar, no corpo discente, a reflexão, a consciência crítica e a capacidade de estabelecimento de relações entre diferentes domínios temáticos e/ou disciplinares. Apercebo-me muitas vezes de que os alunos estão demasiadamente focados num determinado tópico ou disciplina e não são capazes, ainda que o professor os encaminhe, de criar ligações com outros domínios, por exemplo. Do mesmo modo, creio ser fundamental conduzir o aluno para que este se converta num autor do seu processo de aprendizagem, dando-lhe igualmente espaço para se expressar oralmente em aula e para interagir com o professor. Vejo muitas vezes os alunos com medo de se expressarem com receio de errarem a resposta ou de cometerem incorreções linguísticas, algo que dificulta o desenvolvimento da aprendizagem. Torna-se, por isso, fundamental contrariar esta tendência de medo da expressão e interação orais, fomentando uma participação com feedback corretivo, quando necessário, e positivo.

Desejas adicionar algo?

S.D.M: Não posso deixar de vos dar os parabéns pela iniciativa! Fico imensamente feliz por te ver dinamizar este projeto em língua portuguesa e por ver tantos (ex)estudantes a colaborarem contigo para o levar a bom porto! Palmas!

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