Três documentários em português que expõem o problema da identidade das minorias

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Fotografia: pixabay.com

One World Romania é um festival organizado na Romênia desde 2008 que se concentra nos direitos humanos por meio da transmissão de documentários sobre questões sociais.

A edição deste ano chama-se “Tu nem sabes quanto te amo” e concentra-se na exposição dos problemas das culturas marginalizadas de várias sociedades que chegam a perder a sua identidade. No âmbito deste festival apresentam-se os esforços das comunidades minoritárias ou repreendidas que lutam para a integração numa sociedade cheia de preconceitos.

Durante os dez dias de festival, tenta-se traçar o contorno do homem sem uma identidade clara – o estrangeiro, o minoritário, a margem, a periferia e tudo que não se enquadra numa maioria existente. A esta edição participam também três personalidades portuguesas que desejam apresentar os problemas do próprio país através de três documentários impressionantes, mas também perturbantes.

  1. Fordlandia Malaise – Susana de Sousa Dias

O documentário concentra-se na cidade de Fordlandia, fundada em 1928 por Henry Ford, num esforço inútil de destabilizar a supremacia britânica no que diz respeito a extração de borracha. Pela construção dessa cidade no coração da selva amazónica, Ford tentava produzir este material no Brasil para a sua produção de carros nos Estados Unidos. Pelo seu nome e pela sua existência, Fordland é considerado, pela realizadora Susana de Sousa, um símbolo do neocolonialismo, da megalomania e da servitude económica que aconteceu e ainda acontece nos estados da América de Sul. Descrita ora como cidade utópica, ora como cidade fantasma, Fordlandia representa, conforme a realizadora, uma prova da arrogância do homem branco interessado só pelos escravos e pela exploração. Essa ideia é composta através da união entre memórias e imagens do presente desolado.

O produtor Ansgar Schäfer declara sobre o filme: “Estamos a olhar para uma desflorestação da Amazónia que, no fundo, se vai repetir. Um dos programas do [Jair] Bolsonaro era este. Ele diz que ainda há muito mato para cortar. As pessoas que vivem lá [na Fordlandia] acham que, na altura, foi a natureza que se vingou. Agora vai acontecer a mesma coisa. Vão destruir a floresta, mas não vai conduzir a uma produção sustentada, vai roubar os recursos e depois deixar tudo `desertado`”.

Susana de Sousa Dias tenta expor a questão da Amazónia, a aniquilação da cultura indígena e a reclamação da perda da identidade. O filme, uma metáfora do Brasil de hoje mostra um passado caótico que se prolonga num presente incerto.

  1. Sete anos em maio – Affonso Uchôa

Neste documentário trata-se da história trágica dum jovem, Rafael dos Santos, cujo drama é contado em frente duma fogueira. Falando sobre humilhação, opressão e medo, o jovem retrata a imagem dum passado traumático. Sete anos atrás, foi vítima das falsas suspeitas dos policiais que o confundiram com um traficante. A experiência de tortura e de medo é exposta numa forma bruta, sem os arroubos sentimentais tradicionais, marcando assim a veridicidade dos eventos. Depois este episódio infeliz, a vida de Rafael nunca foi a mesma.

A fuga, a dor, a tortura, o envolvimento com drogas e com o trafico tornaram-no num exilado. A sua chance de reconciliação é quase inexistente. A história de Rafael torna-se na história duma geração, que fica num conflito interminável com a polícia brasileira. O jovem é um símbolo dum deserdado da terra no próprio país, cuja vida foi condenada por causa duma suspeita sem base. O seu drama é contado como um evento cotidiano, mostrando assim a frequência destes atos violentos.

O diretor do filme afirma: “Para mim, foi muito chocante, pois é uma história superdramática, trágica. A história do Rafael é a de muitos, pois revela a tradicional relação de poder da polícia. A violência faz parte do jogo, é a forma com que a sociedade brasileira constrange e limita a periferia”.

  1. A rosa azul de Novalis – Gustavo Vinagre

Um filme que se baseia na busca e na exploração da própria sexualidade, em oposição a um mundo conservador. O título faz referência ao poeta e filosofo alemão Novalis, cuja obsessão era de encontrar a flor azul, o sentido da vida, o ideal. O protagonista, Marcelo Diorio é um homem que descreve o seu trajeto no descobrimento da própria individualidade. Chegando a um ponto na sua vida em que aceita o próprio corpo e os próprios desejos, ele rememora uma história que parece ser comum a todos os homossexuais. Fala sobre abusos, humiliações, frustrações e solidão. No caso dele encontram-se todas as minorias que têm outra orientação sexual e que tentam lutar contra os preconceitos da sociedade e criar um sentido de normalidade.

As imagens chocantes do seu orifício anal representam uma modalidade de mostrar que o prazer não tem barreiras e que devemos ser conscientes dos próprios corpos e intenções. A personagem associa também o ato sexual com uma forma de “aplacar as angústias”. Estas angústias foram criadas dentro dum meio social discriminatório, que considera as diferenças uma ousadia, um pecado ou uma mancha. Numa sociedade que recusa a individualidade, Marcelo Diorio representa a voz, cada vez mais forte, daquela categoria social cujos direitos ao discurso livre foram ignorados.

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