José Cardoso Pires e O Delfim – uma inovação na estética neorrealista

0
501
José Cardoso Pires
© Zaim Diana

José Cardoso Pires em O Delfim (1968) traz uma inovação na estrutura narrativa, à luz da nova estética neorrealista, desistindo do papel de narrador dominante: “O Delfim ganha na variação de pontos de vista, que sugerem ao leitor um universo vivo, em constante movimento” (Gomes, 1993: 26).

Pires destaca-se entre os grandes escritores portugueses do movimento neorrealista, inovando no seu romance, ao evitar a tirania do narrador dominante. 

Esta obra representa um ponto de mudança na literatura portuguesa contemporânea pela sua estrutura, que é a de um romance policial. 

O narrador autodiegético tenta resolver o mistério tecido em volta do desmoronamento de uma família, os Palma Bravo, pela morte da mulher, Maria das Mercês, do criado, Domingos, e pelo desaparecimento do marido, o engenheiro Tomás Manuel. 

Todo o fio narrativo se baseia em cinco cenários de crime e também cinco perspetivas diferentes sobre o crime.

Insistiremos em duas técnicas, a do narrador e a do discurso narrativo

Praticamente, temos dois narradores e dois níveis narrativos:

N1 = A narrativa principal, da autoria do primeiro narrador, o autor do romance, narrador extradiegético Na1)

N2 = A narrativa situada num segundo nível diegético, uma narrativa encaixada na N1 (a história contada pelo segundo narrador, um observador, a personagem Escritor: Na2).

De facto o escritor J.C. PIRES vai tornar-se detetive. 

O escritor-autor não está muito presente no romance. Ao longo da narrativa, o Escritor-narrador autodiegético, que é também personagem no romance (Na2), tem um papel essencial no romance. Ele escolhe narrar em primeira pessoa, continua a ser um observador atento, que não se envolve diretamente na história narrada. 

Será um exemplo de auto-referencialidade autoral: quando o narrador autodiegético se distancia dele próprio para se referir como a um Autor – narrador extradiegético.

No romance, o passado e o presente são misturados

Encontramos nas duas narrativas (N1+N2) diferentes planos temporais que criam uma sensação de fragmentação. 

Em o Delfim, a isotopia temporal é classificada em dois planos temporais:

  1. O Tempo Passado: O segundo narrador Na2, o Senhor Escritor 
  2. O Tempo Presente: O primeiro narrador Na1, o Autor 

Podemos observar que, ao longo do romance, a narração simultânea é a mais comum. Neste tipo de narração, o narrador utiliza num único parágrafo dois planos temporais diferentes: passado e presente

O Autor também convida o leitor a participar ativamente na progressão da diegese, tornando-se co-narrador do Na2. Para o efeito, são utilizados verbos sensoriais e percetivos, na primeira pessoa plural: “Vemo-la”, “Chegam-nos”, “verificamos”, “começamos a perceber”, “Escutemo-la”.

É preciso resumir que no romance O Delfim temos uma narrativa da narrativa e, neste ponto, temos o narrador como personagem principal.

Os personagens principais do romance são o Senhor Escritor, Delfim, Maria das Mercês e Domingos

José Cardoso Pires, em O Delfim, critica a mentalidade burguesa com a figuração das personagens do romance. 

O Senhor Escritor (Na2)

Tem um papel importante como narrador-personagem do romance. Com a sua ajuda, descreve-se o mundo da aldeia de Gafeira, a diferença entre as classes sociais, mas sobretudo é ele quem quer descobrir a verdade sobre os crimes. Um observador incurável, que se transformou em detetive, gosta de ficar em segundo plano, convencido de que pode observar melhor o espetáculo. O narrador-personagem, como protagonista, indica uma grande complexidade, porque efetua uma dupla função: a de narrar a trama e a de criticar a própria narrativa.

Tomás Manuel 

Ou como também é chamado no romance, o Engenheiro, o Infante, ou o Delfim, representa a classe social superior da Gafeira e herda um espírito nobre da sua família Palma Bravo. O desaparecimento de Tomás Manuel da Palma Bravo representa um momento marcante na vida dos moradores da Gafeira e um prenúncio da mudança social e de uma nova era dentro de aldeia e da lagoa.

Maria das Mercês

A esposa legítima do Engenheiro ilustra  a mulher infeliz que era incapaz de dar um filho ao casal, que simboliza o declínio e o fim da família de Palma Bravo. 

Por fim, observa-se em O Delfim o plano social. A opressão dos Palmas Bravo na aldeia da Gafeira, a mudança na vida de Gafeira que começou com o desaparecimento de Maria das Mercês e Tomás Manuel (os representantes da antiga nobreza) e a maneira como os moradores da aldeia se estão a preparar para uma nova mudança: a lagoa tem um outro líder, que já não faz parte da nobreza.

O final d’O Delfim fica em aberto, o crime não é resolvido. Os leitores sentem-se como dentro de um labirinto e por vezes terão dificuldade em seguir o fio narrativo.

Do nosso ponto de vista, a técnica narrativa mais complexa que o autor utilizou neste romance é a multiplicidade de narradores e o discurso narrativo. 

O autor, José Cardoso Pires, traça uma escrita enigmática, criando um jogo fascinante para os leitores porque, por um lado, participam no percurso investigativo do narrador autodiegético, num segundo nível narrativo, tornando-se cúmplices daquele narrador e, por outro lado, juntamente com o narrador-autor, participam em tempo real no desenrolar da intriga romanesca, na construção do enredo, sendo participantes do próprio ato da escrita.

Se quiseres ler o livro, podes comprá-lo carregando no link abaixo:

O Delfim by José Cardoso Pires no Amazon.com

O Delfim de José Cardoso Pires no Amazon.es

Referências Bibliográficas:

Gomes, Álvaro Cardoso (1993), A Voz Itinerante: Ensaio Sobre o Romance Português Contemporâneo, Editora da Universidade de São Paulo.

Também te pode interessar este artigo.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here