“InBIsible”: a ausência de representatividade bissexual na mídia

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Fotografia: rawpixel.com

Ser bissexual ainda é um dilema para muitos… Nos últimos anos, as pautas da população LGBTQI+ têm conquistado cada vez mais espaço nas discussões sociais. Junto à luta pelo fim da violência e pela garantia de direitos básicos, o movimento também busca uma maior representação de seus grupos na indústria cultural.

Embora produções que retratam personagens homossexuais tenham ganhado notoriedade recentemente, como os filmes Me chame pelo seu nome e Com amor, Simon, os outros grupos que integram a sigla continuam à margem da mídia. Um desses são os bissexuais, invisibilizados ou retratados de forma a reafirmar estereótipos preconceituosos – em sua maioria oriundos nos anos 80, contexto do surgimento da Aids e da emergência das discussões acerca das múltiplas orientações sexuais.

Bissexualidade – uma vez, o principal comportamento de risco responsável pela larga disseminação do vírus Aids na comunidade gay

Nessa época, a bissexualidade era vista como o principal comportamento de risco responsável pela larga disseminação do vírus na comunidade gay, dada a premissa de que o indivíduo bissexual – entendido como promíscuo – mantinha um relacionamento conjugal heteronormativo para encobrir sua verdadeira sexualidade, ao passo que praticava relações homossexuais no âmbito extraconjugal.

Seguindo essa linha, os principais estereótipos da bissexualidade continuam sendo os da promiscuidade, da indecisão e da pessoa pouco confiável – que, justamente por ser relacionar com mais de um gênero, estaria mais suscetível a cometer traições. Esses rótulos, além de permearem o imaginário social, também são reproduzidos pela indústria cultural.

Exageros do midia: promiscuidade indecisão pessoa pouco confiável

Um dos exemplos da representação distorcida da bissexualidade é na série estadunidense Glee, exibida entre 2009 e 2015. Apesar de vanguardista ao apresentar várias minorias, o seriado peca em cenas como a abaixo:

No vídeo abaixo, a conversa dos personagens Blaine Anderson e Kurt Hummel reforça a tão existente invalidação da identidade bissexual, tratando-a apenas como uma nomenclatura usada para aqueles que não assumem a homossexualidade

A manutenção desses preconceitos também está presente na música. Bi, da cantora Alicia Champion, é um exemplo. Embora busque quebrar o paradigma do apagamento por retratar a bissexualidade, ela falha em sua proposta, já que reproduz os ideais de indecisão e promiscuidade, como fica claro analisando a letra:

(…) boys to my back/ Soft girls to my front / How (…) do I choose?

Tradução: Garotos atrás de mim, garotas macias na minha frente. Como eu escolho?

Kim and Jason both looked good to me / I can’t discriminate / It’s so hard to pick a date.

Tradução: Kim e Jason, os dois pareceram bons pra mim / Eu não posso discriminar / É tão difícil escolher um “parceiro”.

I’m so bi / I can’t stop my wandering eye

Tradução: Eu sou tão bi(ssexual), não consigo parar de “olhar para outras pessoas

No último trecho é possível problematizar o estereótipo da traição, graças ao uso da expressão de língua inglesa wandering eye, utilizada quando alguém comprometido se sente atraído por outras pessoas que não o parceiro, checando-as com o olhar.

Outro exemplo controverso é a música Girls, de Rita Ora, Cardi B, Bebe Rexha e Charli XCX, que por sua vez, pode ser questionada a partir da negação da bissexualidade:

Red wine, I just wanna kiss girls

Tradução: Vinho tinto, eu só quero beijar garotas

A problemática do trecho acima se encontra na invalidação da bissexualidade, já que o eu-lírico feminino só estaria interessado em beijar garotas após o consumo de uma bebida alcóolica, reforçando o “comportamento” bissexual como algo inexistente em condições de sobriedade.

racismo no Brasil e não podemos mais fugir desta realidade…

Mesmo que a comunidade LGBTQI+ esteja ganhando mais espaço na mídia, alguns grupos continuam excluídos desse avanço a passos lentos. Assim, resta a pergunta:

Até quando a bissexualidade continuará sendo representada dessa forma, nas palavras da professora  Elizabeth Sara Lewis: um ciclo vicioso e paradoxal de apagamento e super-sexualização?

1 COMENTÁRIO

  1. Texto super interessante e que me fez pensar muito! Espero que as mídias comecem a pensar mais na representatividade de todas as letras e não só a ‘G’.

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